Project Pan: quando usar tudo o que você já tem vira obrigação

Maquiagens em diferentes estágios de uso, incluindo blush com o fundo da embalagem aparecendo.
Imagem do acervo O Guia Delas

Você compra um blush. Usa algumas vezes. Depois chega outro lançamento, uma promoção, uma recomendação nas redes sociais. O primeiro vai ficando para trás.

O Project Pan apareceu justamente como uma resposta a esse ciclo. Em vez de continuar trazendo novidade para a nécessaire, a ideia é olhar para o que você já tem e realmente usar.

Até aqui, faz bastante sentido.

O problema começa quando a intenção muda sem você perceber. Você não está mais escolhendo usar aquele batom. Você sente que precisa terminá-lo porque pagou por ele. Enquanto isso, o batom de que gosta de verdade fica parado porque ainda não chegou a vez dele.

É aí que aparece uma pergunta mais interessante do que simplesmente “como fazer Project Pan?”:

Você está usando seus produtos ou cumprindo uma dívida com eles?

Project Pan pode ser uma ótima ferramenta para comprar menos, entender seus hábitos e aproveitar melhor o que já está em casa. Mas terminar tudo não precisa virar uma prova de consumo consciente.

O que é Project Pan e por que tanta gente começou a fazer?

Project Pan é uma prática em que você escolhe produtos de beleza que já possui e acompanha o uso deles com a intenção de avançar bastante ou chegar ao fim.

O nome surgiu da ideia de usar uma maquiagem compacta, como blush ou sombra, até aparecer o fundo metálico da embalagem. Com o tempo, a prática passou a incluir também batons, bases, produtos para pele, perfumes e outros cosméticos.

E isso não começou agora. A prática já circulava havia anos em fóruns, blogs, YouTube e outras comunidades de beleza. Em 2018, por exemplo, a Vogue já retratava uma comunidade dedicada a usar maquiagem até o fim.

Mais recentemente, o Project Pan voltou a ganhar espaço nas redes sociais como uma proposta de olhar primeiro para aquilo que já está na nécessaire. A CNN Brasil abordou essa retomada da tendência relacionando-a ao consumo mais consciente de produtos de beleza.

A proposta é simples: antes de comprar o próximo blush, talvez valha descobrir quanto tempo leva para usar o blush que você já tem.

E essa parte pode ser muito útil.

O que o Project Pan acerta

Talvez uma das maiores qualidades do Project Pan seja tornar o nosso consumo mais visível.

É fácil achar que “não tenho quase nada” quando os produtos estão espalhados entre banheiro, bolsa, penteadeira e nécessaires. Também é fácil pensar que um cosmético está acabando quando, na verdade, ele ainda tem meses de uso pela frente.

Acompanhar alguns produtos pode ajudar você a perceber:

  • quanto tempo uma maquiagem realmente dura na sua rotina;
  • quais produtos você usa com frequência;
  • quais categorias vivem acumulando;
  • quais compras eram muito parecidas com coisas que você já tinha;
  • quais produtos esquecidos ainda fazem sentido para você;
  • o que provavelmente não precisa entrar de novo na próxima compra.

O Project Pan também faz parte de uma conversa maior sobre reduzir compras e prestar mais atenção no que já temos. Essa mudança não se limita à maquiagem. Uma reportagem do The Verge analisou o crescimento de conteúdos ligados à redução do consumo em plataformas muito associadas à descoberta e à compra de produtos.

Para algumas pessoas, acompanhar o uso também pode trazer satisfação porque os produtos deixam de ficar esquecidos.

O Project Pan funciona melhor quando serve como informação sobre o seu consumo, e não como uma cobrança para terminar tudo.

Quando “vou usar o que tenho” vira “preciso acabar isso”?

A mudança pode ser bem sutil.

Você começa pensando: “Quero dar mais atenção às coisas que já comprei”.

Algum tempo depois, percebe que a frase virou: “Não posso usar outro blush enquanto este não acabar”.

Não são exatamente a mesma coisa.

Na primeira situação, o projeto ajuda você a escolher melhor. Na segunda, a regra pode começar a escolher por você.

Isso não é um problema inevitável do Project Pan. Muitas pessoas se divertem acompanhando o progresso, tirando fotos mensais ou marcando quanto um produto diminuiu.

Também existem relatos de participantes que dizem ter sentido pressão para cumprir determinadas metas ou terminar produtos. Esses relatos ajudam a entender experiências individuais dentro da comunidade, mas não demonstram que o Project Pan provoque esse efeito nas pessoas em geral.

A pergunta mais útil é outra:

o projeto ainda está ajudando você a usar melhor o que tem ou você começou a usar coisas só para cumprir o projeto?

O paradoxo de guardar o que você ama para terminar o que não ama

Dois batons usados sobre uma penteadeira, com um deles separado como produto a ser terminado.
Imagem do acervo O Guia Delas

Imagine que você tenha dez batons.

Há dois de que gosta muito, quatro que usa de vez em quando e um que não ficou tão bom quanto parecia na loja.

Justamente esse último entra no Project Pan.

Então você passa meses insistindo nele porque quer “fazer valer o dinheiro”. Os favoritos ficam esperando.

Pode aparecer um paradoxo aí: na tentativa de não desperdiçar uma compra de que você não gostou, você aproveita menos os produtos de que realmente gosta.

Não significa que você precise abandonar um produto na primeira vez em que ele não empolgar.

Às vezes, dar outra chance faz sentido. Talvez a cor funcione melhor em outra época do ano. Talvez você descubra uma combinação de que goste. Talvez simplesmente precise lembrar de usar aquilo que estava esquecido.

A diferença está em perceber quando você está experimentando outra possibilidade e quando está se obrigando a passar meses com um produto de que não gosta só para conseguir terminá-lo.

Terminar o produto não desfaz a compra

Essa parte pode ser desconfortável, mas também pode trazer bastante alívio:

o dinheiro já foi gasto.

Terminar até a última gota de um produto de que você não gosta não transforma aquela compra numa boa compra.

Você pode aproveitar o Project Pan para fazer uma pergunta mais útil: por que aquilo entrou na sua casa?

Foi uma promoção?

Você já tinha algo parecido?

Comprou pensando numa rotina que, na prática, não existe?

Achou que usaria aquela cor todos os dias e depois descobriu que quase nunca escolhe esse tipo de produto?

Esse aprendizado pode valer mais do que conseguir esvaziar a embalagem.

Porque consumo consciente não acontece apenas quando você termina ou descarta um produto. Ele também acontece quando surge a próxima vontade de comprar.

Se aquele batom mostra que você quase nunca usa tons muito escuros, essa informação pode evitar outros batons parecidos no futuro.

O produto não precisa “pagar sua dívida”. Ele pode simplesmente ensinar alguma coisa.

Existe diferença entre desperdício e reconhecer uma compra ruim?

Sim.

Mas reconhecer que uma compra não funcionou também não significa adotar a regra “não gostei, jogo fora”.

Antes de decidir, vale olhar para o estado do produto e para as possibilidades que realmente fazem sentido.

Talvez você ainda queira usá-lo ocasionalmente. Talvez perceba que gosta dele em outra situação. Se o produto continua fechado e adequado, pode existir alguma possibilidade de doação, dependendo do item e de quem vai recebê-lo.

O que não vale é inventar usos que não foram previstos para aquele cosmético só para não “desperdiçar”. A Anvisa orienta que os cosméticos sejam usados de acordo com sua finalidade e nas áreas do corpo para as quais foram desenvolvidos.

Também é diferente falar de um produto fechado e falar de um item que já entrou em contato com você durante o uso. Cosméticos usados não devem ser tratados automaticamente como objetos comuns que podem simplesmente circular entre várias pessoas.

A ideia aqui não é criar uma regra única para cada item da nécessaire.

É reconhecer uma coisa mais simples:

você não precisa transformar uma compra ruim em meses de penitência para provar que aprendeu com ela.

Produto vencido? Project Pan não é uma corrida contra a validade

Ver o fundo da embalagem pode ser satisfatório. Terminar um produto poucos dias antes de uma meta também pode dar aquela sensação de “consegui”.

Mas nenhuma dessas coisas deveria passar na frente da segurança.

Um cosmético não precisa ser terminado só porque entrou no seu Project Pan.

Vale observar a validade indicada no produto e as orientações do fabricante. A Anvisa também recomenda atenção a alterações de cor, cheiro, consistência ou outras características incomuns.

Essas características também aparecem no Guia de Estabilidade de Produtos Cosméticos da Anvisa, que aborda aspectos como aparência, cor e odor dos produtos.

Também é importante armazenar cosméticos nas condições indicadas pelo fabricante e evitar situações que possam comprometer o produto.

Isso importa porque um Project Pan pode durar meses ou até atravessar anos, dependendo do cosmético e da frequência de uso.

Não existe um prazo único que sirva para “maquiagem” como categoria inteira. Produtos diferentes têm fórmulas, embalagens e condições de uso diferentes.

Por isso, não tente terminar um cosmético a qualquer custo só porque ele entrou no projeto.

Se o produto já não está adequado, interromper o uso não significa fracassar. Significa apenas reconhecer que ele não deve continuar sendo usado.

Quando até o consumo consciente começa a parecer obrigação

Mulher passa creme no rosto em frente ao espelho, mas não gosta do resultado.
Imagem do Acervo O Guia Delas

Tem gente que adora marcar a lateral de uma embalagem para acompanhar quanto desceu no mês. Outras pessoas fazem listas, escolhem produtos para acompanhar durante o ano ou comemoram cada embalagem terminada.

Nada disso é um problema por si só.

Para algumas pessoas, justamente esse acompanhamento deixa o Project Pan mais gostoso. Ele pode dar uma sensação de progresso, ajudar a lembrar dos produtos escolhidos e revelar quanto tempo uma coisa realmente leva para acabar.

O ponto muda quando acompanhar deixa de ajudar e passa a ser a parte que você sente que precisa satisfazer.

Isso pode aparecer quando você:

  • continua usando um produto de que não gosta apenas para terminá-lo;
  • deixa seus favoritos parados porque “não pode” trocar;
  • começa a considerar que não terminar um item significa que o projeto deu errado;
  • pensa mais na quantidade de produtos terminados do que no que aprendeu sobre suas compras;
  • transforma produtos de beleza em uma lista de tarefas que precisa zerar.

Há pessoas que continuam adorando o Project Pan e outras que preferem mudar as regras ou parar de acompanhar por um tempo.

Não precisamos decidir qual experiência é a correta.

As duas podem existir.

A pergunta é se o seu jeito de acompanhar ainda está trabalhando para você ou se você começou a trabalhar para o acompanhamento.

O objetivo é terminar mais produtos ou precisar de menos?

Cosméticos terminados de um lado e produtos novos do outro, representando o que saiu e entrou na coleção.
Imagem do Acervo O Guia Delas

Imagine duas pessoas.

Uma termina 30 produtos durante o ano e compra 35.

Outra termina cinco e compra dois.

Só olhando para a quantidade de embalagens vazias, não dá para saber qual delas mudou mais a própria relação com o consumo.

Essa é uma das limitações de tratar produtos terminados como um placar.

Produto terminado é informação. Não precisa ser troféu.

Em vez de acompanhar apenas quantos acabaram, você pode observar outras coisas:

  • quantos produtos novos entraram;
  • quais categorias você termina naturalmente;
  • quais quase nunca acabam;
  • o que você compra repetidamente e depois abandona;
  • quais produtos você compra em versões muito parecidas;
  • quantas vezes comprou um substituto antes de realmente precisar dele;
  • se descobrir quanto um produto dura mudou sua vontade de comprar outro.

Às vezes, terminar um blush depois de dois anos ensina muito mais do que simplesmente aumentar uma contagem.

Talvez você perceba que nunca precisou de seis blushes.

E essa descoberta pode influenciar suas compras por muito mais tempo do que o próprio desafio.

Project Pan combina com minimalismo?

Pode combinar, principalmente quando ajuda você a perceber o que realmente faz sentido manter.

Para algumas pessoas, o Project Pan aproxima a rotina de um consumo mais simples. Você começa querendo terminar um produto e descobre que prefere ter menos opções, mas usar melhor o que escolheu.

Isso não significa buscar o menor número possível de cosméticos.

Ter o essencial é ter uma quantidade que faça sentido para a sua vida.

Se você gosta muito de maquiagem e usa cores diferentes, seu essencial pode ser maior. Se repete praticamente a mesma maquiagem todos os dias, talvez descubra que precisa de menos do que imaginava.

O ponto é conseguir olhar para o que tem e perguntar:

isso faz sentido para a minha rotina ou está aqui só porque um dia pareceu uma boa ideia?

O Project Pan pode ajudar justamente nisso. Não porque obriga você a acabar com tudo, mas porque deixa mais claro o que realmente usa.

Talvez o melhor resultado seja conhecer melhor o que você tem

Você não precisa criar outra planilha se não quer.

Não precisa escolher 20 produtos para acabar.

Não precisa fotografar tudo no primeiro dia de cada mês.

Pode simplesmente abrir sua gaveta e começar a fazer perguntas melhores:

Eu sabia que ainda tinha isso?

Eu gosto desse produto?

Eu realmente uso essa categoria?

Quantas versões muito parecidas já tenho?

O que eu sempre termino naturalmente?

O que parece durar para sempre?

O que eu compro e depois quase não uso?

Por que continuo comprando coisas dessa categoria?

Talvez essa seja uma das contribuições mais interessantes do Project Pan.

A coleção deixa de ser apenas uma quantidade de coisas e começa a ficar mais legível.

Você percebe que usa corretivo até o fim, mas quase nunca termina batom.

Que compra paletas e usa sempre as mesmas três cores.

Que um hidratante dura muito mais do que imaginava.

Que aquela categoria que parecia sempre precisar de novidade já está mais do que coberta.

O objetivo não precisa ser esvaziar tudo.

Pode ser entender o suficiente para que a próxima compra seja melhor do que a anterior.

Quando vale continuar e quando vale mudar as regras do seu Project Pan?

Se o Project Pan está ajudando você a comprar menos, reencontrar produtos que gosta e entender melhor seus hábitos, não existe motivo para abandonar algo que está funcionando.

Continue.

Também não precisa mudar nada só porque outra pessoa prefere um projeto mais solto.

Por outro lado, talvez seja hora de ajustar suas próprias regras se você percebe que:

  • um produto virou obrigação;
  • seus favoritos ficam parados enquanto você insiste em algo de que não gosta;
  • terminar passou a importar mais do que usar;
  • você mantém um item no projeto mesmo sem aprender mais nada com ele;
  • a contagem de produtos terminados virou mais importante do que suas decisões de compra;
  • você sente que precisa continuar usando um cosmético mesmo quando ele já não parece adequado.

Você pode retirar um produto.

Pode trocar a meta de “terminar” por “usar algumas vezes e decidir”.

Pode fazer rodízio.

Pode acompanhar compras em vez de embalagens vazias.

Pode manter só os produtos que realmente quer usar.

Pode simplesmente parar de acompanhar por um tempo.

O projeto deveria ajudar você a decidir melhor o que usa e compra. Não decidir por você.

No fim, talvez o melhor resultado de um Project Pan nem seja conseguir terminar tudo.

Talvez seja abrir a nécessaire, saber exatamente o que gosta, o que usa, o que nunca precisou ter comprado e chegar à próxima promoção com uma pergunta muito mais difícil de ignorar:

eu realmente preciso colocar mais isso aqui dentro?

Se a resposta for não, o produto que você não comprou também faz parte do resultado.

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